sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Do Primeiro Dia ao Último



Parecia melhor o salão... Quando ficou vazio e silencioso. Depois que todos entraram nas salas ficou fácil perceber. Agora dava pra sentir a presença do presente, e escutar os barulhinhos equilibrados do jardim que ficava ao lado, que por sinal era muito bonito, e acho mesmo que ninguém nunca notou antes de mim, ali, naquele momento, aquele jardim... Eu e o jardineiro apenas, por certo, e também por certo, o jardineiro era invisível aos olhos adestrados daquele lugar horrível.
Seria um corredor e não um salão? Bem... salão é aceitável, dado que eu era um bebê, praticamente, e a proporção física das coisas é sempre maior para quem é pequenino, e assim fica na memória. Era um corredor. No corredor havia quatro salas. Deus... apenas quatro salas... e realmente me parece um salão quando lembro. Hoje entendo o quão pequeno deve ser o espaço, mas não para uma cambada de pequenos bebês e crianças... Pequenos humanóides prontos para se tornarem os próximos filhas das putas porcos, covardes e escondedores das milhares de gestalts que estariam abrindo desde já, ali, e esconderiam oprimindo, poluindo, fugindo... para o resto de suas vidas. Acho que eu já sentia isso quando tinha... sei lá, uns dois anos de idade. Cada sala tinha seu círculo desenhado no chão em frente à porta de entrada, onde ficavam as crianças de cada sala em cima da linha. Nesse salão e nesses círculos as crianças se reuniam solenemente, diariamente, para rezar antes do adestramento... sofrer... temer a deus... e desejar ardentemente passar para a sala a ao lado... que dava mais status por ser de uma série mais elevada.
 As pequenas putinhas sempre davam mais crédito para o cara do jardim um, e as do jardim um sempre davam pro do jardim dois, as do jardim dois pro da alfabetização... e assim seria até ninguém querer mais comê-las ao olhar pra elas, quando ficassem velhas, que seria o momento delas começarem se comportar finalmente como quem gosta de ser desejada, ao invés de se mostrarem ofendidas. Não que ali, naquela idade, elas fossem comíveis ou pensassem nesses termos... alguns acham que sim, mas não é o meu caso. Elas apenas estavam treinando. De qualquer forma quando ficassem velhas passariam a importunar os possíveis genros.
Os meninos... correriam atrás da primeira bola idiota que passasse. Não, nada a ver com esportes, mas com seus pais tão imbecis quanto eles mesmos seriam um dia, e com seus futuros carros... Versões adultas das salas de jardim um, dois, alfabetização... e seus status.
Depois de toda a palhaçada no círculo branco desenhado no chão, em frente a sala, as crianças deveriam entrar em fila indiana, devidamente lobotomizadas, para adentrar à sala.
Era meu primeiro dia de aula.
Lembro de ter a minha intuição aflorada naquele momento. Sabia que não estavam me levando pra um lugar bom. De alguma forma, a Dadá, sabia disso também. Ela trabalhava na minha casa e era como uma irmã pra mim. Levou-me lá cheia de uma solidariedade incompreendida até por ela mesma, que estava em seus olhos. Cada passo que as crianças davam, em fila, lembrava um cortejo...
O colégio ficava ao lado do meu condomínio, portanto não foram necessários muitos passos pra esse cortejo. No caminho, a Dadá repetia as promessas de futuro que me fizeram em casa e ela ouviu, para que eu gostasse da escola... Ela falava tentando repetir a solenidade que seria mais própria de minha mãe, enquanto mãe, pois era assim que ela ouvia. Mas porque ela mesma não se formou se era assim? Essa pergunta estava por trás de seus olhos... seus olhos misericordiosos... no fundo ela queria dizer... “Fuja, corra! Eu invento alguma coisa!” Mas ela não disse isso.
                Impressionante como a solidão sempre fez sentido pra mim. Todos haviam entrado na sala de aula. Eu não. Não fiz nenhuma histeria... apenas chorava silenciosamente e calmo. Fui ao último lugar da fila e deixei que fossem andando, sem nem mesmo perceberem que fiquei pra trás. Quando a porta da sala se fechou, olhei ao redor, e foi nesse momento que o “salão” ficou mais agradável. Sentei ao lado do jardim e fiquei olhando pra ele.
A tia foi substituída por alguém e veio a mim.
- Venha... vamos... Sávio.
                Ela se informou do meu nome. Já começava a dissimulação... mais justo seria ter me chamado de “menino” ou por um número, mas não querem que a gente descubra tão cedo... Ela, como a Dadá, também nem sabia o que estava fazendo ali, e eu era o único que questionava isso. Desde então, sou odiado ou amado pelas mesmas razões, definindo maiorias e minorias ao alcance de meus olhos.

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