Parecia melhor
o salão... Quando ficou vazio e silencioso. Depois que todos entraram nas salas
ficou fácil perceber. Agora dava pra sentir a presença do presente, e escutar
os barulhinhos equilibrados do jardim que ficava ao lado, que por sinal era muito
bonito, e acho mesmo que ninguém nunca notou antes de mim, ali, naquele momento,
aquele jardim... Eu e o jardineiro apenas, por certo, e também por certo, o
jardineiro era invisível aos olhos adestrados daquele lugar horrível.
Seria um corredor
e não um salão? Bem... salão é aceitável, dado que eu era um bebê,
praticamente, e a proporção física das coisas é sempre maior para quem é pequenino,
e assim fica na memória. Era um corredor. No corredor havia quatro salas.
Deus... apenas quatro salas... e realmente me parece um salão quando lembro.
Hoje entendo o quão pequeno deve ser o espaço, mas não para uma cambada de
pequenos bebês e crianças... Pequenos humanóides prontos para se tornarem os
próximos filhas das putas porcos, covardes e escondedores das milhares de
gestalts que estariam abrindo desde já, ali, e esconderiam oprimindo, poluindo,
fugindo... para o resto de suas vidas. Acho que eu já sentia isso quando
tinha... sei lá, uns dois anos de idade. Cada sala tinha seu círculo desenhado no
chão em frente à porta de entrada, onde ficavam as crianças de cada sala em
cima da linha. Nesse salão e nesses círculos as crianças se reuniam solenemente,
diariamente, para rezar antes do adestramento... sofrer... temer a deus...
e desejar ardentemente passar para a sala a ao lado... que dava mais status por
ser de uma série mais elevada.
As pequenas putinhas sempre davam mais crédito
para o cara do jardim um, e as do jardim um sempre davam pro do jardim dois, as do jardim dois pro da alfabetização...
e assim seria até ninguém querer mais comê-las ao olhar pra elas, quando
ficassem velhas, que seria o momento delas começarem se comportar finalmente como
quem gosta de ser desejada, ao invés de se mostrarem ofendidas. Não que ali,
naquela idade, elas fossem comíveis ou pensassem nesses termos... alguns acham
que sim, mas não é o meu caso. Elas apenas estavam treinando. De qualquer forma
quando ficassem velhas passariam a importunar os possíveis genros.
Os meninos... correriam
atrás da primeira bola idiota que passasse. Não, nada a ver com esportes, mas
com seus pais tão imbecis quanto eles mesmos seriam um dia, e com seus futuros
carros... Versões adultas das salas de jardim um, dois, alfabetização... e seus status.
Depois de toda
a palhaçada no círculo branco desenhado no chão, em frente a sala, as crianças
deveriam entrar em fila indiana, devidamente lobotomizadas, para adentrar à
sala.
Era meu
primeiro dia de aula.
Lembro de ter
a minha intuição aflorada naquele momento. Sabia que não estavam me levando pra
um lugar bom. De alguma forma, a Dadá, sabia disso também. Ela trabalhava na
minha casa e era como uma irmã pra mim. Levou-me lá cheia de uma solidariedade incompreendida
até por ela mesma, que estava em seus olhos. Cada passo que as crianças davam,
em fila, lembrava um cortejo...
O colégio
ficava ao lado do meu condomínio, portanto não foram necessários muitos passos
pra esse cortejo. No caminho, a Dadá repetia as promessas de futuro que me
fizeram em casa e ela ouviu, para que eu gostasse da escola... Ela falava
tentando repetir a solenidade que seria mais própria de minha mãe, enquanto
mãe, pois era assim que ela ouvia. Mas porque ela mesma não se formou se era
assim? Essa pergunta estava por trás de seus olhos... seus olhos
misericordiosos... no fundo ela queria dizer... “Fuja, corra! Eu invento alguma
coisa!” Mas ela não disse isso.
Impressionante
como a solidão sempre fez sentido pra mim. Todos haviam entrado na sala de
aula. Eu não. Não fiz nenhuma histeria... apenas chorava silenciosamente e
calmo. Fui ao último lugar da fila e deixei que fossem andando, sem nem mesmo
perceberem que fiquei pra trás. Quando a porta da sala se fechou, olhei ao
redor, e foi nesse momento que o “salão” ficou mais agradável. Sentei ao lado
do jardim e fiquei olhando pra ele.
A tia foi
substituída por alguém e veio a mim.
- Venha... vamos... Sávio.
Ela
se informou do meu nome. Já começava a dissimulação... mais justo seria ter me
chamado de “menino” ou por um número, mas não querem que a gente descubra tão
cedo... Ela, como a Dadá, também nem sabia o que estava fazendo ali, e eu era o
único que questionava isso. Desde então, sou odiado ou amado pelas mesmas
razões, definindo maiorias e minorias ao alcance de meus olhos.
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