domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Cigarra e seu Trabalho


Hoje fiquei em um dado momento, desesperado por algo como Mercy Street e me mantive acordado, até para ficar só. É comum a solidão da madrugada me abrir o coração, abafado pelo convívio humano assustador que o dia sugeriu cinicamente, como se houvesse escolha.
A madrugada veio, a solidão. Não funcionou. Veio junto tristeza, saudade. A música, antes mesmo de ser carregada, foi vista por meus olhos impacientes na tela do computador e meus ouvidos me disseram: Quantas vezes você não nos deu essa música? Já funcionou antes... agora a música está carregando e você vai ouvir... ela vai acabar. Ela sempre acaba. Você continuará acordado e sentindo esse vazio.
A vida pede urgência, mas ela pede isso sentada, com um chapéu estendido e uma voz sem força. De repente a música amada se transformou no jargão de um mendigo profissional.
Abro uma garrafa e destruo de vez o dia de amanhã? Não... já fiz isso ontem.
Já ouvi demais a música, gastando o número limitado de vezes que uma música pode fazer mágica por nós sem ser deixada em paz por uns tempos.
Acho que todos dormem... e sei que acordarão ocupados. Poderia eu estar automatizado e calar a mente? Fazer parte?
Poderei eu seguir nessa noite sem amanhecer? Não sei amanhecer.
Seria perfeito se as formigas tivessem convidado a cigarra para animar-lhes o inverno. Invejosas, covardes.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

METIA


Outro dia, mais um dia, outro dia mais um dia outra tia mais mentia todo dia.
Outro ia, mas mentia a cada dia enquanto ia e quando ia mais um dia mais mentia.
Ou tu ia, mas a tia outro dia mais havia mais um dia mais mentia mais me tinha.
Outro lia e quando lia mais me tinha e mais mentira outro dia outro ia.
O dia a dia adia
O dia a ti adia
A tia adia o dia
Adia o dia a dia
A tia te adia
Adia há dias
Ardia a tia dia a dia
A tinha e ardia dia a dia

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Nossa Pureza


Nossa pureza questionadora de tudo que vai de encontro a nossa vontade, como não poderia deixar de ser qualquer pureza, nos aproximou...
Em todas as vezes que perguntamos por que não, enquanto todos ao redor obedeciam outros porquês, alimentamos nossos desejos e reinventamos o que de fato seria pecado, o que seria trair-se, e nos aproximamos passo a passo, nos intuindo, e sem nos conhecermos rosto e tato, mas com almas mais íntimas que os rostos que nos cercaram.
Perdemos nossa inocência nos braços um do outro, e agora nossa pureza está mais abaulada... Destruindo sem cuidados, as ilusões ofertadas pelas pessoas novas que surgem na sacada.
Perdemos nossa inocência nos braços um do outro, ou o que restava dela, que já vinha tão afiada que nos cortava sem cuidados, em cada abraço despreparado para tanto amor.
Hoje somos dois, e um pra cada lado, como dupla de pesquisadores que um dia se encontrarão para expor o que descobriram do mundo, seguimos... Conscientes de que tudo passa... E sentindo isso dia a dia. Escolhemos eternizar distantes, o que estaria fadado ao fim e não merecia, na humanidade pobre um do outro.
Extraterrestres colonizados, reaprendendo o caminho para as estrelas, esquecendo os caminhos que nos levavam juntos ao nosso quarto.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Do Primeiro Dia ao Último



Parecia melhor o salão... Quando ficou vazio e silencioso. Depois que todos entraram nas salas ficou fácil perceber. Agora dava pra sentir a presença do presente, e escutar os barulhinhos equilibrados do jardim que ficava ao lado, que por sinal era muito bonito, e acho mesmo que ninguém nunca notou antes de mim, ali, naquele momento, aquele jardim... Eu e o jardineiro apenas, por certo, e também por certo, o jardineiro era invisível aos olhos adestrados daquele lugar horrível.
Seria um corredor e não um salão? Bem... salão é aceitável, dado que eu era um bebê, praticamente, e a proporção física das coisas é sempre maior para quem é pequenino, e assim fica na memória. Era um corredor. No corredor havia quatro salas. Deus... apenas quatro salas... e realmente me parece um salão quando lembro. Hoje entendo o quão pequeno deve ser o espaço, mas não para uma cambada de pequenos bebês e crianças... Pequenos humanóides prontos para se tornarem os próximos filhas das putas porcos, covardes e escondedores das milhares de gestalts que estariam abrindo desde já, ali, e esconderiam oprimindo, poluindo, fugindo... para o resto de suas vidas. Acho que eu já sentia isso quando tinha... sei lá, uns dois anos de idade. Cada sala tinha seu círculo desenhado no chão em frente à porta de entrada, onde ficavam as crianças de cada sala em cima da linha. Nesse salão e nesses círculos as crianças se reuniam solenemente, diariamente, para rezar antes do adestramento... sofrer... temer a deus... e desejar ardentemente passar para a sala a ao lado... que dava mais status por ser de uma série mais elevada.
 As pequenas putinhas sempre davam mais crédito para o cara do jardim um, e as do jardim um sempre davam pro do jardim dois, as do jardim dois pro da alfabetização... e assim seria até ninguém querer mais comê-las ao olhar pra elas, quando ficassem velhas, que seria o momento delas começarem se comportar finalmente como quem gosta de ser desejada, ao invés de se mostrarem ofendidas. Não que ali, naquela idade, elas fossem comíveis ou pensassem nesses termos... alguns acham que sim, mas não é o meu caso. Elas apenas estavam treinando. De qualquer forma quando ficassem velhas passariam a importunar os possíveis genros.
Os meninos... correriam atrás da primeira bola idiota que passasse. Não, nada a ver com esportes, mas com seus pais tão imbecis quanto eles mesmos seriam um dia, e com seus futuros carros... Versões adultas das salas de jardim um, dois, alfabetização... e seus status.
Depois de toda a palhaçada no círculo branco desenhado no chão, em frente a sala, as crianças deveriam entrar em fila indiana, devidamente lobotomizadas, para adentrar à sala.
Era meu primeiro dia de aula.
Lembro de ter a minha intuição aflorada naquele momento. Sabia que não estavam me levando pra um lugar bom. De alguma forma, a Dadá, sabia disso também. Ela trabalhava na minha casa e era como uma irmã pra mim. Levou-me lá cheia de uma solidariedade incompreendida até por ela mesma, que estava em seus olhos. Cada passo que as crianças davam, em fila, lembrava um cortejo...
O colégio ficava ao lado do meu condomínio, portanto não foram necessários muitos passos pra esse cortejo. No caminho, a Dadá repetia as promessas de futuro que me fizeram em casa e ela ouviu, para que eu gostasse da escola... Ela falava tentando repetir a solenidade que seria mais própria de minha mãe, enquanto mãe, pois era assim que ela ouvia. Mas porque ela mesma não se formou se era assim? Essa pergunta estava por trás de seus olhos... seus olhos misericordiosos... no fundo ela queria dizer... “Fuja, corra! Eu invento alguma coisa!” Mas ela não disse isso.
                Impressionante como a solidão sempre fez sentido pra mim. Todos haviam entrado na sala de aula. Eu não. Não fiz nenhuma histeria... apenas chorava silenciosamente e calmo. Fui ao último lugar da fila e deixei que fossem andando, sem nem mesmo perceberem que fiquei pra trás. Quando a porta da sala se fechou, olhei ao redor, e foi nesse momento que o “salão” ficou mais agradável. Sentei ao lado do jardim e fiquei olhando pra ele.
A tia foi substituída por alguém e veio a mim.
- Venha... vamos... Sávio.
                Ela se informou do meu nome. Já começava a dissimulação... mais justo seria ter me chamado de “menino” ou por um número, mas não querem que a gente descubra tão cedo... Ela, como a Dadá, também nem sabia o que estava fazendo ali, e eu era o único que questionava isso. Desde então, sou odiado ou amado pelas mesmas razões, definindo maiorias e minorias ao alcance de meus olhos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sobre o Cansaço


                 

                 O cansaço nos dá seletividade. Seletividade nos dá economia de movimentos, escolha de palavras, questionamentos sobre o que sobra e não precisa sobrar. É inevitável que pontas de sabedoria comecem a aparecer nesse ponto, dentro de um meio submerso como em uma caneca cheia onde o formato dos objetos de sabedoria estejam no fundo. Quando é que essa caneca começa a secar? Para que as tais pontas comecem a aparecer? Essa parte é triste... É quando ela começa a ser consumida.
                Tenho aqui ao meu lado, a minha própria caneca, literal. Ela é branca, clássica, e tem uma estampa, que é a logo da Fábrica de Monstrinhos, espaço criado por eu e meus amigos, para treinarmos escalada. Agora, quando digo isso, é a parte em que se desconfia nitidamente que não é um velho que escreve, e perco a credibilidade. Não me privem de seu crédito... Eu o mereço, e você merece alguma coisa de mim, por certo.
                Já escrevi sobre isso antes e certamente voltarei a escrever. As pessoas sonham em voltar no tempo, e terem suas mentes atuais em corpos mais jovens, como se fossem fazer tudo diferente. Sabe por que você faria diferente? Porque você já teve a vontade de errar e errou, descobrindo apenas depois que era um erro, mas acredite, embora eu não saiba o que lhe falta, não lhe faltaria mais se você houvesse voltado no tempo e providenciado, mas faltaria a você, ter feito o que hoje considera que foi um erro. Hoje, você estaria no amargo de sentir a falta de não ter feito as coisas que fez e viveu de verdade. Sentiria falta de ter descoberto com seus erros, e gozado a vida com eles antes de pagar por seus preços. De que adianta ter memórias impecáveis e sem gritos, temores, espasmos? Apenas um caminho retilíneo e seguro? E se você teve o tal caminho retilíneo... Você pode até ter tido poucos erros na vida e hoje, ser um "cidadão bem sucedido"... Quem comete o maior erro, que é ter de vivido assim, não precisa de maior quantidade de erros pra pesar na balança de uma vida e seus equívocos.
                Temos que ter (clichê verdadeiro) muito cuidado com o que queremos. Vejam, escrevo como um velho, e no entanto, sou um escalador, esguio, com o corpo e a mente de 34 anos de idade, ambos exercitados até a exaustão! Hoje, desta forma, aparento muito menos com meu corpo em forma, meus prodígios, ao tempo que li muito, escrevi muito, amei muito, arrisquei muito, viajei muito... Hoje sou uma pessoa que em tese seria apaixonante, mas sem dinheiro nenhum, praticamente, logo, não tenho esposa nem filhos. Sou uma pessoa solitária a maior parte do tempo, mas prefiro isso, a ser um dos maridos das mulheres que tanto comi escondido deles, enquanto os mesmos nem sonham que isso aconteceu e nem são tão cogitados dentro dos sonhos delas... Apenas estão, carinhosamente, ali, confortavelmente, ali, sendo maridos e papais... Anulando-se em uma séria de coisas que homem nenhum deveria permitir, e com filhos geralmente idolatrados frágeis e muitas vezes detestáveis. Quanto mais burguêses, mais dão náuseas... Prefiro dar paixão, amor, verdade, e ir embora. Talvez exista um meio termo... Ainda procuro por ele.
                O amor é raro. Mais raro ainda quando o amor da vida de alguém, não precisa ser uma lembrança guardadinha ali... Enquanto outra pessoa segura sua mão nos eventos sociais (missa, aniversários, zonas de conforto) que definem sua vida tão teatral.
                Quando eu comecei a escrever este texto, tinha em mente falar sobre como as pessoas descobriram tantas coisas, sobre o quanto o ovo faz mal, o hamburger, o cigarro... As pessoas podem comer tofu, praticarem sorrisos, viverem 150 anos. Eu mesmo tenho uma vida que tende a ser saudável... Na metade do tempo. Na outra, eu quero queimar como pólvora, recusando-me a viver demais.
                Tenho pouca idade, mas já vivi demais... Comigo não funcionou essa coisa de ter um corpo jovem e uma mente idosa. Braços poderosos não podem carregar este tipo de peso. Um homem de 70 anos consegue carregar e ainda assim, não precisa mais carregar por tanto tempo. Eu só tenho 34... E quando olho pra frente, eu e minha plena capacidade musculo-esquelética-cardio-pulmonar... E reparo nas pessoas dispostas ao redor, pra correr pau a pau comigo nessa estrada da vida, em suas meias modernas de corrida e seus tênis propulsores, viseiras... Acho tudo tão ridículo que tenho vontade de sentar pra ver o mar e deixar que corram e descubram por si só a verdade sobre seus apetrechos e sobre si mesmos. Os homens corriam menos, mas eram homens correndo, descalços, na areia da praia, sem um movimento social patrocinado, sem saberem o quanto por cento têm de gordura no corpo.
                Ontem eu estava no aeroporto, e vi uma porção de gente bonita, fashion, torneada. Ninguém era feliz de verdade, pagando sempre uma boa soma em dinheiro para se distrair da própria verdade.
               Quando estava saindo do aeroporto, vi um grupo de trabalhadores de lá, na folga, deitados em uma calçada mais afastada dos transeuntes, em papelões, conversando, fumando, calmos... Eles eram os melhores dali. Não faziam investimentos bancários, nem compravam roupas de marca, ou carros. Eles simplesmente trabalhavam, se encontravam, riam, arrumavam umas mulheres... Compravam arroz, feijão, ovos, cigarros, e envelheciam. Eles não pareciam se incomodar de viver em um mundo onde você vai morrer mais cedo ou mais tarde.
                Tenho péssimo hábito de não dar continuidade a certas coisas que começo a falar. Eu ia dizendo que comecei a fazer este texto, pra falar de umas coisas e tal... Na verdade preciso escrever de qualquer jeito, coisa minha... Preciso escrever. Agora penso em abrir um blog com ele.