O cansaço nos dá seletividade. Seletividade nos dá economia de movimentos, escolha de palavras, questionamentos sobre o que sobra e não precisa sobrar. É inevitável que pontas de sabedoria comecem a aparecer nesse ponto, dentro de um meio submerso como em uma caneca cheia onde o formato dos objetos de sabedoria estejam no fundo. Quando é que essa caneca começa a secar? Para que as tais pontas comecem a aparecer? Essa parte é triste... É quando ela começa a ser consumida.
Tenho aqui ao meu lado, a minha própria caneca, literal. Ela é branca, clássica, e tem uma estampa, que é a logo da Fábrica de Monstrinhos, espaço criado por eu e meus amigos, para treinarmos escalada. Agora, quando digo isso, é a parte em que se desconfia nitidamente que não é um velho que escreve, e perco a credibilidade. Não me privem de seu crédito... Eu o mereço, e você merece alguma coisa de mim, por certo.
Já escrevi sobre isso antes e certamente voltarei a escrever. As pessoas sonham em voltar no tempo, e terem suas mentes atuais em corpos mais jovens, como se fossem fazer tudo diferente. Sabe por que você faria diferente? Porque você já teve a vontade de errar e errou, descobrindo apenas depois que era um erro, mas acredite, embora eu não saiba o que lhe falta, não lhe faltaria mais se você houvesse voltado no tempo e providenciado, mas faltaria a você, ter feito o que hoje considera que foi um erro. Hoje, você estaria no amargo de sentir a falta de não ter feito as coisas que fez e viveu de verdade. Sentiria falta de ter descoberto com seus erros, e gozado a vida com eles antes de pagar por seus preços. De que adianta ter memórias impecáveis e sem gritos, temores, espasmos? Apenas um caminho retilíneo e seguro? E se você teve o tal caminho retilíneo... Você pode até ter tido poucos erros na vida e hoje, ser um "cidadão bem sucedido"... Quem comete o maior erro, que é ter de vivido assim, não precisa de maior quantidade de erros pra pesar na balança de uma vida e seus equívocos.
Temos que ter (clichê verdadeiro) muito cuidado com o que queremos. Vejam, escrevo como um velho, e no entanto, sou um escalador, esguio, com o corpo e a mente de 34 anos de idade, ambos exercitados até a exaustão! Hoje, desta forma, aparento muito menos com meu corpo em forma, meus prodígios, ao tempo que li muito, escrevi muito, amei muito, arrisquei muito, viajei muito... Hoje sou uma pessoa que em tese seria apaixonante, mas sem dinheiro nenhum, praticamente, logo, não tenho esposa nem filhos. Sou uma pessoa solitária a maior parte do tempo, mas prefiro isso, a ser um dos maridos das mulheres que tanto comi escondido deles, enquanto os mesmos nem sonham que isso aconteceu e nem são tão cogitados dentro dos sonhos delas... Apenas estão, carinhosamente, ali, confortavelmente, ali, sendo maridos e papais... Anulando-se em uma séria de coisas que homem nenhum deveria permitir, e com filhos geralmente idolatrados frágeis e muitas vezes detestáveis. Quanto mais burguêses, mais dão náuseas... Prefiro dar paixão, amor, verdade, e ir embora. Talvez exista um meio termo... Ainda procuro por ele.
O amor é raro. Mais raro ainda quando o amor da vida de alguém, não precisa ser uma lembrança guardadinha ali... Enquanto outra pessoa segura sua mão nos eventos sociais (missa, aniversários, zonas de conforto) que definem sua vida tão teatral.
Quando eu comecei a escrever este texto, tinha em mente falar sobre como as pessoas descobriram tantas coisas, sobre o quanto o ovo faz mal, o hamburger, o cigarro... As pessoas podem comer tofu, praticarem sorrisos, viverem 150 anos. Eu mesmo tenho uma vida que tende a ser saudável... Na metade do tempo. Na outra, eu quero queimar como pólvora, recusando-me a viver demais.
Tenho pouca idade, mas já vivi demais... Comigo não funcionou essa coisa de ter um corpo jovem e uma mente idosa. Braços poderosos não podem carregar este tipo de peso. Um homem de 70 anos consegue carregar e ainda assim, não precisa mais carregar por tanto tempo. Eu só tenho 34... E quando olho pra frente, eu e minha plena capacidade musculo-esquelética-cardio-pulmonar... E reparo nas pessoas dispostas ao redor, pra correr pau a pau comigo nessa estrada da vida, em suas meias modernas de corrida e seus tênis propulsores, viseiras... Acho tudo tão ridículo que tenho vontade de sentar pra ver o mar e deixar que corram e descubram por si só a verdade sobre seus apetrechos e sobre si mesmos. Os homens corriam menos, mas eram homens correndo, descalços, na areia da praia, sem um movimento social patrocinado, sem saberem o quanto por cento têm de gordura no corpo.
Ontem eu estava no aeroporto, e vi uma porção de gente bonita, fashion, torneada. Ninguém era feliz de verdade, pagando sempre uma boa soma em dinheiro para se distrair da própria verdade.
Quando estava saindo do aeroporto, vi um grupo de trabalhadores de lá, na folga, deitados em uma calçada mais afastada dos transeuntes, em papelões, conversando, fumando, calmos... Eles eram os melhores dali. Não faziam investimentos bancários, nem compravam roupas de marca, ou carros. Eles simplesmente trabalhavam, se encontravam, riam, arrumavam umas mulheres... Compravam arroz, feijão, ovos, cigarros, e envelheciam. Eles não pareciam se incomodar de viver em um mundo onde você vai morrer mais cedo ou mais tarde.
Tenho péssimo hábito de não dar continuidade a certas coisas que começo a falar. Eu ia dizendo que comecei a fazer este texto, pra falar de umas coisas e tal... Na verdade preciso escrever de qualquer jeito, coisa minha... Preciso escrever. Agora penso em abrir um blog com ele.